segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A desigualdade aprende-se em casa ou, o grande pecado maternal





Retrocedamos por breves momentos até ao passado longínquo da nossa espécie, digamos aos tempos da Idade da Pedra.


Vivêssemos nesta época e qualquer um de nós teria que saber caçar, fazer fogo, conhecer que plantas e frutos seriam comestíveis e os que teriam propriedades medicinais, fazer ferramentas a partir de pedra e muitos outros utensílios a partir dos materiais encontrados na natureza, como cestos, construir abrigos, fazer vestuário a partir das peles dos animais, etc.


Este contexto é um óptimo exemplo para perceber que todos estes conhecimentos são essenciais, e pessoa que não os detivesse seria inapta para a sobrevivência. Tão simples quanto isso.


Depois, em algum momento da nossa evolução (?) começaram, sabe-se lá porquê, a serem criadas distinções sobre que tarefas seriam mais "apropriadas" para homens e  mulheres.
E começaram-se a formatar todos os seres humanos segundo uma lista de estereótipos que viraram norma social.


Uma das grandes consequências para além da desigualdade, é a incompetência, a inaptidão.


(Há muito para dizer sobre esteréotipos e desigualdade, e por isso mesmo vou tentar não me dispersar, senão perde-se o fio à meada.)




Hoje, pelo menos na nossa sociedade, as tarefas que definem o nosso quotidiano e nos são indispensáveis, terão o mesmo fim que tinham na Idade da Pedra, (alimentação, abrigo, etc), mas evoluíram na forma. Vamos às compras, não vamos à caça. Não fazemos utensílios, compramo-los.


Saber cozinhar, tratar da roupa, limpar a casa, gerir o orçamento e fazer compras, são algumas das tarefas rotineiras que qualquer pessoa deve dominar para ser considerado um indivíduo capaz e autónomo.
Não se espera que todos saibam desempenhar todas as tarefas com mestria, mas espera-se certamente que nos saibamos desenrascar minimamente.




Um dos títulos deste post é "o grande pecado maternal", e a escolha foi propositada, pelo seguinte:


Sempre me causou espécie as mães que distinguem os filhos das filhas.


Vem-me à memória uma colega de escola, de quando tinha cerca de 11 ou 12 anos, a imagem dela a passar a ferro com a mãe, e de como já dominava essa tarefa e muitas outras, enquanto o irmão mais velho estava protegido de todos esses afazeres.


Assim como esta lembro-me de tantas outras histórias e pessoas.


De uma mãe, trabalhadora, e de como ficava até de madrugada a passar a roupa do marido e filhos, pilhas imensas, a cozinhar almoços para o dia seguinte. Que insiste em se levantar da mesa, durante a refeição, para ir buscar tudo o que alguém se lembre de pedir.


Há mães que quando ouvem opiniões sobre a divisão igualitária das tarefas domésticas entre homens e mulheres, ficam horrorizadas. "Era só o que faltava! Ai, nem pensar!". Ainda as há assim.


Há mães, que se dirigem à casa dos filhos para limpar, tratar da roupa e cozinhar.
E que vontade que inibo com um enorme esforço de, quando me deparo com mãezinhas destas, de lhes perguntar, qual o grau de deficiência do rapaz, coitadinho. Não tem bracinhos? Sofre de algum tipo de paralisia ou algo assim, que o impeça de fazer as coisas?


De outra, que, aos dois empregos que tem fora de casa, some-se um terceiro: o de cuidar do filho, homem já feito, levando-o nas mãozinhas, fazendo-lhe tudo. Anda exausta. Diz que gosta, faz cara feia às críticas. E eu nada digo. Mas causa-me espécie.


Diz-se que a vida é de cada um, que cada um é que sabe de si. Tudo muito bem e bonito, não fossem as repercussões irem muito além da sua vida, do seu espaço.




Para começar, a longa história da desigualdade entre géneros e os seus frutos não são um mistério para ninguém. Não há mulher no mundo que não a tenha sentido na pele, pelo menos uma vez.
Por isso, das mulheres, mães de filhos, o que eu espero é que promovam a Igualdade em casa, pois está nas mãos delas quebrar este ciclo, educando meninos que quando forem homens se saibam comportar fora das limitações impostas durante tanto tempo, da formatação dos estereótipos.


No entanto, há mães que pelo seu comportamento estão a promover a continuidade da desigualdade.


Um menino que seja ensinado a cozinhar, a passar a ferro, a arrumar, a lavar a louça, a participar de todas as tarefas domésticas não será menos homem por isso. Exactamente da mesma forma que uma mulher que saiba o suficiente de mecânica e bricolage para se desembaraçar sozinha, nunca será menos mulher.
Pelo contrário, serão seres humanos mais bem preparado para a vida, capazes e independentes. Que na minha cabeça, é algo que todo o pai e mãe desejam para os seus filhos.




Não ensinar a um filho essas capacidades básicas de sobrevivência só porque é do sexo masculino não é protegê-lo, é criar um imbecil, um incapaz.
É adiar a igualdade entre géneros, a concórdia, a harmonia, o entendimento, a evolução, por mais uma geração.
É habituá-lo à ideia que o papel das mulheres é serem criadas dos homens, servi-los, fazerem-lhes a papinha toda e lavar-lhes o cú com água de rosas, porque é o exemplo que mãezinha lhes deu. É alimentar-lhes a crença que um dia vão casar com uma mulher tal e qual a santa da mãezinha, que nunca na vida terão que mexer uma palha, que tudo em casa aparece feito como se de magia se tratasse.


Felizmente, nem todos os filhos destas mães caem no pior cenário. Alguns criam na vida de adulto uma realidade diferente, porque nunca gostaram nem se reviram no ambiente em que cresceram.


Outros, darão continuidade à misoginia. Nem que fosse só um, já era demais.




Minhas senhoras, aceitem a grande importância do vosso papel enquanto mães e educadoras, compreendam que as vossas escolhas têm grandes repercussões. Eduquem os vossos filhos no espírito da Igualdade, e certamente teremos um mundo diferente e mais evoluído no espaço de duas gerações.