terça-feira, 18 de agosto de 2015
Antropoformização involuntária #2
Sempre que metemos por uma rua específica, o Kiko puxa-me qual cão de trenó e tenta, com todas as suas forças, arrastar-me para dentro da clínica veterinária.
Os meus gatos odiavam ter que sair de casa, especialmente se fosse para ir a uma consulta veterinária. Recordarei para sempre o quanto era difícil força-los a entrar na transportadora. De como abriam as patas, tal como num cartoon, e as prendiam em redor da abertura da caixa. Ainda cheguei, algumas vezes, a ter que telefonar para reagendar o que quer que fosse que estivesse marcado, porque não havia maneira de os meter lá dentro.
Assim, foi com dupla, tripla ou até quádrupla estupefação que me deixei ser arrastada pelo Kiko até à clínica das primeiras vezes. Aquele cão adora mesmo lá ir. Fica delirante de tanta alegria, histérico mesmo, e não há pica ou termómetro no rabo que arrefeçam tamanho entusiasmo.
As pessoas com quem me cruzo por lá ficam igualmente incrédulas. Normalmente os seus animais fazem é birra para não ir.
"Ai que giro! Nunca vi! - dizem.
Ao que eu respondo: "Se calhar, quando for grande quer ser veterinário!".
Costumes portugueses que os turistas acham estranhos #2
A toponímia em Portugal, especialmente no que toca a ruas, pracetas, estradas, avenidas e que tais, recorre-se frequentemente dos nomes de alguns ilustres que passam a ser, em seu reconhecimento, nomes de lugar.
Até onde habito as ruas foram nomeadas em memória de poetas, pintores, dramaturgos...
Tudo muito bem, que é um hábito salutar fazer por manter presente na memória os que se evidenciaram por mérito ao longo da nossa História.
A coisa torna-se é confusa e contrária à primária função de dar nomes aos arruamentos e lugares, que há-de ser a da orientação, quando num pequeno raio geográfico os nomes se repetem.
Graças a isso já não é a primeira vez que me cruzo, durante os rotineiros passeios com o Kiko, com turistas estrangeiros que vindo à procura do Palácio de Seteais para fazer o check in, se deparam numa rua suburbana, tranquila, onde não há qualquer vestígio de um palácio.
Hoje foi um casal de meia-idade francês que me abordou perdido. E eu que não falava francês há cerca de vinte anos lá os enviei até meio caminho. Que parassem o carro e pedissem novamente informações. Ainda lhes fiz um croqui.
Quando cheguei a casa ainda telefonei para o Hotel. Avisei-os que se estiverem à espera de clientes com tais características que façam os possíveis por contactá-los, pois provavelmente andavam perdidos.
A recepcionista confirmou que era habitual enganarem-se e virem parar aqui, ao meu burgo.
E eu já estou à espera dos próximos turistas, fáceis de topar, pois estarão com um papel na mão, estupefactos ora a olhar para as moradias da rua ora para o tal papel, à procura de qualquer semelhança com o Palácio.
Continuarei a fazer o meu papel de boa samaritana. Talvez comece a andar com as coordenadas gps do Hotel. E ao décimo turista vou lá cobrar a comissão.
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
coisas de pensar: Comissão para a Protecção de Idosos
Pensar sobre o envelhecimento causa-me uma sensação agridoce.
Se, por um lado tento manter bem presente a noção que envelhecer é um privilégio. Que verdadeiramente é uma bonança ter nascido em Portugal, país onde a esperança média de vida alcança os 80 anos, ao contrário por exemplo da Serra Leoa onde o mesmo indicador aponta para os 38 anos. Que triste mesmo é quando a vida é curta.
O reverso da situação faz-me pensar que mesmo não havendo comparação possível com as abomináveis realidades de outros pontos do globo, não deixa de ser algo assustador envelhecer por aqui. Parafraseando: "este país não é para velhos".
O que não deixa de ser irónico, pois com a baixa taxa de natalidade e uma população cada vez mais envelhecida, no espaço de um par de gerações este será, nada mais nada menos que, um país de velhos.
Devido à petição, subscrita por mais de 5000 cidadãos, debateu-se no Parlamento a criação de uma Comissão para a Protecção de Idosos. Infelizmente é algo que ficará, por enquanto, em banho-maria.
Grassam pelos media as notícias sobre o tema. Já deu para levantar levemente o véu sobre a triste condição de muitos dos nossos idosos. Da solidão, das carências, dos familiares mal formados e miseráveis que lhes faltam com o necessário, capazes no entanto de lhes ficar com as reformas.
E penso: que pena perdermos com o passar dos anos as capacidades do corpo e da mente, ver a saúde minada e ficarmos à mercê de quem não sabemos ser ou não fiável. Seria tão melhor se fosse possível manter as mesmas capacidades de um corpo de 30 ou 40 anos até ao último dia da nossa vida. Chegar lá com autonomia e saúde.
No futuro voltarei a este tema. Hoje, gosto de pensar que se deu um pequeno primeiro passo para a construção de uma realidade mais compassiva, digna, justa para os nossos idosos. Uma realidade que, se tivermos sorte, pois envelhecer é um privilégio, será também a nossa.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
cromices #85: Um novo recorde
Recorrendo ainda à analogia das pilhas, se o Kiko anda a Duracell, as minhas são daquelas muito rascas que se compram no chinês.
Ontem fui tratar da depilação. Fui recebida no gabinete, (este decorado num pacífico estilo zen), com uma musiquinha de fundo muito suave. Mal me deitei na marquesa e a senhora iniciou a sua tarefa, senti-me a apagar. Acho que ando mesmo exausta pois por maior que seja o jeitinho da técnica a depilação dói sempre um bocado.
Aí o cérebro lançou um alerta: "Iniciar conversa de circunstância ou organismo fará shutdown em 10...9...8..."
No entanto, acho que passei brevemente pelas brasas durante a massagem que marca o final da sessão.
Assim sendo fiquei com mais um local a acrescentar à minha lista de proezas de sono. Eu que já adormeci em transportes, praias, salas de aula (na primeira fila!), salas de espera, um banco de jardim, num bar, numa discoteca em plena festa de fim de ano, na casa de banho (nos tempos em que tinha que acordar às 5h da manhã para ir para as aulas), e ocupando o primeiro lugar da lista até ao momento, na cadeira do dentista durante a extração de um siso. Isto porque comecei a meditar para me abstrair da dor e do desconforto horríveis e a coisa funcionou tão bem que caí num sono profundo.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Vida de cao #27: Kiko e os manos Fukushima
Há pouco tempo mudou-se cá para o burgo um casal e os seus dois filhos pequenos.
Como primeira impressão eu diria que parecem muito simpáticos e acessíveis. É uma adição ao burgo que não passou despercebida a ninguém porque são especialmente barulhentos e os miúdos peculiarmente enérgicos.
Como é uma criança "peculiarmente enérgica"?
Só vos digo isto: O Kiko é um Jack Russel Terrier, como tal é dos cães mais activos e com mais energia. No contacto com outros cães, entre corridas e brincadeiras, raramente nos cruzámos com outro cão que tivesse pedalada para o Kiko. As brincadeiras terminam geralmente com o outro cão absolutamente exausto e o nosso fresco que nem uma alface.
Quando o Kiko e os miúdos se conheceram foi a primeira e única vez que vi o meu cão estarrecido pelo imenso nível de energia de alguém. Agora imaginem o quanto é necessário para deixar um Jack assim!
Se o meu cão anda a pilhas Duracell, aqueles miúdos são uma central nuclear. Daí parecer-me apropriado arranjar-lhes a alcunha de Fukushima.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2015
cromices #84: É por estas e por outras que hei-de ir para o inferno
Marido e Kiko foram dar uma volta.
Mesmo após alguma insistência, hoje preferi ficar por casa.
"Ficas em casa a fazer o quê?!" - pergunta-me ele.
Respondi-lhe que ficar em casa é uma actividade demasiado complexa para descrever.
Na realidade, isto era a única que me ocorria: Sozinha em casa! Yeah! Boa!
Eu sei: sou má como as cobras. Péssima! Péssima!
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
cromices #83: Não há como fugir à genética
Quando vivia com os meus pais, não havia amiga, amigo ou colega que entrasse lá em casa que não fosse bombardeado com ofertas de comida e bebida:
- Não tenha vergonha! Faça de conta que está em sua casa! - gracejava o meu pai, enquanto insistia pela vigésima vez que a pessoa comesse qualquer coisinha - Tem a certeza que não quer nada?!
E a pessoa, normalmente encolhida e algo ruborizada, largava pela vigésima terceira vez algo como: "Estou bem, sr. A., não quero nada. Obrigada, a sério que não quero nada."
E eu revirava os olhos:
- Oh pai, Fulana já disse que não quer nada. Não insistas mais que já estás a ser chato!
Mas o karma é tramado. Mais tarde ou mais cedo acabamos por pagar por todas as vezes que cuspimos para o ar.
Numa das últimas vezes que tivemos por cá companhia para o jantar, exagerei tanto na comida que andei a almoçar sobras durante quase uma semana.
E lá estava eu, durante a refeição, a ser filha do meu pai, sua cópia fiel, chata como tudo a insistir que Fulanos e Sicranas comessem mais, que não tivessem vergonha, que fizessem de conta que estavam em sua casa.
E ri-me sozinha. Ninguém percebeu, mas não faz mal. Eram cá coisas entre mim e a minha genética.
A melhor empresa do mundo #3: "Nevzat, o patrão que vendeu a empresa e deu €216 mil a cada funcionário"
Basta uma única pessoa para surgir uma ideia, desenhar um conceito. Mas depois, na prática, toda uma equipa é fundamental para o sucesso. Daí ser tão justo que os frutos do sucesso sejam repartidos.
É bom ter uma notícia para partilhar que fala disto mesmo:
"Nevzat Aydin decidiu vender a sua Yemeksepeti, uma empresa turca de encomendas online e entrega de refeições ao domicílio, a uma companhia alemã do mesmo ramo, a Delivery Hero.
Segundo a CNN, o negócio foi fechado por 530 milhões de euros. Mas a notícia não é esta, ainda que o negócio seja financeiramente relevante. O que tem feito de Aydin notícia é o facto de ter decidido distribuir 25 milhões por 114 trabalhadores.
Em média, cada empregado recebeu 216 mil euros. No entanto, este valor varia consoante a produtividade e o “futuro potencial na empresa” de cada um. Só os trabalhadores com mais de dois anos de contrato é que foram elegíveis para o bónus.
Para Nevzat Aydin, cofundador da empresa, o sucesso da Yemeksepeti “não aconteceu do dia para noite e muitas pessoas participaram nesta viagem com o seu trabalho e talento”. “Alguns choraram, outros gritaram e houve ainda quem escrevesse cartas de agradecimento. Houve muitas emoções, porque mudámos a vida das pessoas. As pessoas [agora] podem comprar casas, carros... Podem fazer imediatamente algo que nunca conseguiriam com um ordenado de 900 ou 1500 euros. Foi uma coisa boa. Gostaria de ter a capacidade de lhes dar mais”, contou Aydin.
A Yemeksepeti foi fundada há 15 anos e entrega mensalmente mais de três milhões de refeições e opera nos Emirados Árabes Arábia Saudita, Líbano, Omã, Qatar, Jordânia, Jordânia e, claro, na Turquia. O conceito da empresa passa pela encomenda de refeições online que depois são entregues no local e à hora escolhida pelo cliente.
Com a venda da Yemeksepeti, Nevzat Aydin mantém o cargo de diretor-executivo e passa também a ocupar uma cadeira no painel da administração da Delivery Hero."
in Expresso
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quarta-feira, 29 de julho de 2015
Vida de Cão #26: Nunca foi tão fácil dar-lhe o remédio!
A rotina do Kiko é marcada, este mês, também pela toma do Leishguard, para a prevenção da leishmaniose.
Dar medicação a um cão é infinitamente mais fácil do que fazê-lo a um gato. Mesmo assim optámos por lhe dar a colherzinha de remédio imediatamente antes do jantar, porque facilita as coisas ter ali à mão de semear uma recompensa que ele adora.
Mas a coisa deve ter um sabor tão repugnante que mal o miúdo fareja o líquido amarelo vira o focinho.
Numa das últimas encomendas de artigos para o Kiko havíamos mandado vir uma embalagem de pasta Kong geralmente utilizada para rechear o tão famoso brinquedo. Não me cativou muito a ideia de o ter aos pulos pela casa a espalhar aquela nhanha por todo o lado, mas descobrimos que se juntarmos uma nozinha de recheio Kong ao remédio a percepção que o Kiko tem deste muda do dia para a noite.
Agora mal me vê pegar na embalagem do Leishguard abana a cauda e lambe-se, o que nos facilita a tarefa.
Para quem desconhece o que é o brinquedo Kong e o tal recheio, fica um vídeo.
terça-feira, 28 de julho de 2015
Chá e bolachas não puxam carroça, ou as paragens de digestão.
Este é o segundo dia em que ando a recuperar de uma paragem de digestão.
Há quem nunca tenha passado por uma destas. Pois a esses só digo: seus sortudos!
Comparo o estômago a um qualquer corpo de água - lago, rio, ribeiro - a quem o movimento é primordial. Água que se move é saúde, é vida. Água estagnada é lodo, doença e podridão.
Já não é a primeira vez que tenho uma paragem de digestão e não é por isso que se torna mais fácil, simplesmente identifica-se com maior facilidade.
Aquela sensação, horas após a refeição, que alguma não está bem, de parecer sentir na boca o sabor do jantar. Depois aparecem os sintomas que podem ser naúseas, vómitos, fraqueza, quebra de tensão, cansaço, calafrios, suores, dores de estômago, torções e até perda de consciência.
Já aprendi que o melhor a fazer, por mais desagradável que seja, é induzir o vómito. O que será geralmente fácil e rápido pois o organismo está mortinho para se ver livre de todo aquele conteúdo que repousa no estômago, inerte e ainda por digerir.
Depois a hidratação é fundamental. Beber muitos líquidos, em especial água e chás doces. A Camomila e a Cidreira são duas óptimas opções pois ajudam a acalmar e são indicadas para problemas digestivos.
Logo que se possa é tentar comer alguma coisa, como uma bolacha de água e sal. E é incrível a quantidade de tempo que se demora e o quanto custa comer aquela amostra de bolacha.
Gradualmente, a par com a ingestão de líquidos e repouso, é ir comendo um pouco mais: umas torradas com pouca manteiga, uns caldos leves com pouco tempero e sem gordura.
Conforme a situação, a idade e o estado de saúde da pessoa, há quem se recupere em horas, e há quem precise de dias.
domingo, 26 de julho de 2015
A Princesa Emília
Raro é o dia em que não passe pelo Facebook, essa amálgama de mil coisas tão dissonantes entre si em valor.
Nem sei explicar muito bem o porquê de ter desperdiçado um par de minutos num "quiz" sobre princesas da disney, tive melhor sorte quando apanhei a partilha do vídeo sobre Emily, a pequena miúda que quis doar o seu cabelo a crianças que dele precisassem.
E pensei que não há cá Elsa, Rapunzel, Mérida, Tiana ou Ariel que cheguem aos calcanhares da Princesa Emília. Que se tivesse descendência levavam com este vídeo no intervalo dos desenhos animados.
quarta-feira, 22 de julho de 2015
coisas sobre mim #1: Maria
Chamo-me Ana. Ana Maria.
Em miúda odiava o meu nome. A parte da Maria.
Haviam sempre muitas Anas. Ana Sofia, Ana Filipa, Ana Rita, Ana Claúdia, Ana Cristina and so on...
Tantas combinações possíveis e haveria de me ter calhado Maria na rifa, pensava eu. As únicas Anas Marias que conheci durante a infância eram da geração dos meus pais ou dos meus avós.
"Deram-me nome de velha!" - queixava-me eu aos meus pais. - "Não há ninguém da minha idade que se chame Ana Maria" - o que fazia de mim, de certo modo, única, que é das coisas que mais se detesta quando se está na adolescência e se sente um desejo maior de integração, de pertença, de aceitação por parte dos pares, de não querer sobressair. É por estas e outras que é a tal idade do armário.
De um momento para o outro parei de me queixar do meu nome. Aceitei-o, passei a gostar dele, a acarinhá-lo, a senti-lo ainda mais meu por ser incomum.
Bastou-me saber que havia sido escolhido pelo meu pai, o nome que havia sido de uma irmã que não sobreviveu para além da primeira infância. Que o anúncio do meu nome junto da família gerou comoção. Em nome da ternura e do amor foi-me passado em testemunho o nome que hoje é tão meu que nem imagino possível ser outro.
Portanto, se me quiserem chamar Ana Maria, estejam à vontade.
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