sábado, 6 de dezembro de 2014

cromices #60: Ah, o cheiro a napalm logo pela manhã!



Um dia, quando for grande, quero ser uma pessoa zen. Daquelas que emanam serenidade por todos os poros e são impertubáveis, haja o que houver. Tipo Dalai Lama.

Acho que só o facto de o desejar dá claramente a entender que sou o oposto. Há momentos em que penso que, se fosse cão, era um daqueles chihuahas, em modo irritadiço e irritante.
Ou se preferirem, alguém com a disposição esperada para um cenário de guerra tipo Vietname: tensa, hirta, alerta, a voz sai com o volume mais elevado do que desejaria, e pareço pronta a apertar o gatilho à mínima coisa.

Mesmo assim o jogo não acaba a zeros. Ponto de honra por me aperceber, e por tentar melhorar.

Hoje de manhã tinha dado um jeito tremendo ser como o Dalai Lama.

Ainda estamos em período de adaptação cá por casa. A habituar-nos ao Kiko, às nova rotinas, a corresponder ao que ele necessita de nós, à cena do reforço positivo em todas as situações.

Faz hoje uma semana. Estamos felizes mas exaustos. Parecemos uns zombies.
O Kiko é óptimo, tendo em conta que é um bébé, e com donos inexperientes, porta-se lindamente. Da nossa parte, acho que também merecemos, não 20 valores, porque a ignorância tem o seu peso, mas ainda assim uma nota positiva.

Hoje de manhã, bem cedinho, o marido acorda mal-disposto. É uma intoxicação alimentar. Como ambos comemos e bebemos exactamente a mesma coisa, ando à espera da minha vez, mas a rezar para que não aconteça. É que dá um tremendo jeito que um se mantenha apto para cuidar do outro, do Kiko e de tudo o que apareça.

Fomos tomar o pequeno-almoço numa esplanada bem perto de casa, não fosse o diabo tecê-las.


Pequeno-almoço servido e chega um dos nossos amigos caninos, o Ianni, (dúvidas sobre a grafia correcta).
O Ianni é um cão com alguma idade, preto e grande. É um bom cão, como todos os cães, gostamos dele. Mas é um cão muito chato, que mói a paciência a um santo.
Chega à esplanada e anda pelas mesas a pedinchar comida. Entra no "espaço pessoal" das pessoas, ladra, excita-se, não desiste, chateia.
É claro que a culpa não é dele, é dos donos. Não lhe deram a educação devida, deixam-no andar ao deus dará, não se importam nada que existam n pessoas pela localidade que o alimentem, até lhes dá jeito, comportam-se irresponsavelmente e até já ouvi vários relatos que me fazem acreditar que não o merecem, como não lhe abrir o portão num dia de chuva e tempestade.

E eu enfureço-me com estas pessoas e já não há-de faltar muito para lhes ir bater à porta a deitar faíscas dos olhos, porque naquele minuto tenho ao meu lado um marido cadavérico por causa do mal-estar, queremos paz e sossego enquanto tomamos a nossa refeição, e há ali um cão que lá por gostarmos dele não significa que não seja um melga de primeira, com um comportamento que nenhum cão deveria ter.
E é isso que estou quase quase a ir lá dizer-lhes: que um cão é para estar em casa, bem alimentado, protegido dos elementos. Não na rua a exibir comportamentos incorrectos, a incomodar, e sobretudo a correr o risco de ser atropelado porque anda sem trela.

Entretanto marido levanta-se de repente. Diz que já volta e corre até casa. Foi vomitar.
E eu ali fico à espera dele, a olhar para o relógio do telemóvel a pensar que mais 5 minutinhos e cago nisto tudo, o cão que devore as torradas todas que eu vou para casa.
Vão aparecendo amigos e perguntam-me sobre o Kiko. Passam alguns minutinhos.

Chega um casal com um miúdo e sentam-se na mesa ao lado. Estou rodeada por uma criança e um cão tremendamente excitados. Está tudo bem.
O miúdo interpela-me. Pergunta-me se o cão é meu. Trata-me por tu. Digo que não, que não é meu.
Pergunta-me se lhe pode dar festas, e antes de eu ter tempo para responder já está em cima do cão.
Os pais nem se mexem. Eu aviso que o cão não é meu, que acho que lhe pode dar uma festinha, com cuidado e meiguice,  sem exageros. Que tudo deve acontecer sob supervisão, que não me responsabilizo.
O miúdo abusa. Eu volto a avisá-lo que tem que ser meigo. Os pais não se mexem, mas desta vez dizem-lhe qualquer coisa a respeito.
O miúdo continua a tratar-me por tu. Nem todas as crianças são assim, mas este tem modos de pigmeu abrutalhado. Nota-se que está a passar por uma fase (?) qualquer em que gosta de ser um "bocado" malcriado com os adultos, demasiado enérgico no mau sentido, que anda a testar os limites e, não vi que lhe metessem o travão nisso.

Pergunta-me pela enésima vez se o cão é meu, se não é meu de quem é, e quem é que estava sentado comigo, porque estão dois copos na mesa e só lá estou eu, e novamente se o cão é meu...

Não lhe satisfaço todas as curiosidades, era só o que faltava!
Quando não lhe quero responder, sobretudo porque não tem nada a ver com isso ou quando já lhe respondi à mesma questão demasiadas vezes, ignoro-o.
Afinal não é só o cão que precisa de treino.

Respiro fundo, esboço um sorriso. Tento ir às profundezas buscar uma paciência que hoje me falta. Mas as reservas estão em baixo, e eu acabo por lhe dizer que quando for grande deveria ir trabalhar para a Polícia Judiciária, que tem jeito para interrogatórios.
Nada mau, diga-se! - mentalmente estava pensar mais num "porra que és mesmo chato!".

Aplausos para o Ianni que se portou bem com o mini melga. Lá está, é um bom cão, só precisa que os donos se comportem melhor.

Quando se foram embora, pouco depois, dei-lhe umas festas e mais um bocado de torrada para o recompensar pela paciência.
Há tantas opiniões quanto pessoas, mas eu gostaria de ter visto pais mais assertivos. Que, com calma e carinho, guiassem o puto para outro comportamento.
Que o lembrassem de várias coisas: que não se tratam adultos, especialmente desconhecidos, por tu; que enquanto não acalmasse não se poderia chegar perto do cão para lhe dar festas, que um deles o tivesse acompanhado nisso, que ao fim de repetir três vezes a mesma pergunta o chamassem à atenção.
Volta o marido. Consegue a custo mastigar mais um naco de torrada.

Neste momento só eu ando por aqui acordada, a fazer tudo o que é necessário para que os meus dois rapazes estejam bem.