segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vida de Cão #2: O Compromisso



Os animais podem ser muitas coisas: membros da família, companheiros, melhores amigos, terapeutas, guias, e sem dúvida, maravilhosos. Todos eles.

Não são brinquedos, muito menos descartáveis.


Há quem encare os animais de estimação como filhos, e eu pertenço a esse grupo de pessoas.

Sei que há muita gente que não entende tal conceito, que revira os olhos e se benze perante tal ideia, que nos acham maluquinhos.

E eu continuo na minha, não só por uma questão emocional, mas também racional:
É que, tal como um filho humano, o nosso animal de estimação depende de nós para tudo. Para alimento, abrigo, afecto, protecção, assistência médica e educação.

Ambos, seres humanos e não humanos contam com a figura que encaram enquanto pai/ mãe / tutor/ guardião / seja lá o que queiram chamar, para tudo isso. Procuram-nos se têm medo, fome, sede, se estão tristes ou alegres, se necessitam de orientação, se estão doentes, se querem carinho ou brincar. Ambos nos observam, nos imitam, aprendem connosco, e acabam por ser de certa forma o nosso reflexo. Espelho das nossas capacidades e incapacidades.

O meu senso dita-me que qualquer pessoa que demonstre estar apta para tal, sendo consciente e cumpridora, mostra ser Pai ou Mãe, honrando a essência do termo, seja para com um menino ou um cãozinho.

Conheço pessoas de tal forma responsáveis com o papel que assumiram com os seus animais, e até com os animais de "ninguém",( as vítimas de um imenso infortúnio, da negligência e da crueldade, que esperam por uma verdadeira família), capazes de envergonhar muitos pais de crianças humanas, cuja maior aptidão para a parentalidade é terem orgãos genitais. Infelizmente, também existem demasiadas crianças que mereciam bem melhor, perdoem-me o eufemismo.
Sobretudo aqui considero que não há diferenças entre crianças e animais: um só animal ou criança maltratados é um a mais!

Para mim, a grande diferença é a esperança de vida. De um filho humano espera-se que continue a viver mesmo depois de partirmos. É a ordem natural das coisas. Acredito que, quando essa ordem é subvertida, deve ser a dor mais atroz e tenebrosa.

Um animal, em comparação, vive muito menos. Já o sabemos à partida, mas na realidade, acho que ninguém está preparado.
Da dor que advém da perda de um animal sei falar. Já a senti e é das coisas mais horríveis com que já tive que lidar na vida. Deixa marcas.
O que acontece é que com o passar do tempo as memórias felizes vão-se sobrepondo ao sentimento de perda, de luto em todas as suas fases, da tristeza à frustração, da dor à ira.

Por exemplo, eu que perdi o Ulisses para uma doença auto-imune, e os manos Eros e Zeus para a insuficiência renal tive uma longa fase de luto, em que me senti tão, mas tão zangada com o "Universo" pelo nosso destino. Tão furiosa e frustrada por ter dado o melhor de mim, de ter procurado agir sempre de forma certinha e responsável e, mesmo assim perder a batalha contra as doenças. Senti-me pequenina e impotente. Tão triste e vazia sem eles.

Agora, anos depois, recordo-os transbordando unicamente de afecto. As tais memórias felizes que nos fazem sorrir.
Senti-me (sentimo-nos) preparada para um novo compromisso, e foi dessa vontade que surgiu o Kiko, que agora enquanto escrevo se encontra a dois passos de distância, num sono de primeira infância.

(Pausa na escrita. Pôr a máquina da roupa a trabalhar pela terceira vez hoje, dar-lhe de comer, limpar mais um chichi, e brincarmos com a bolinha. Retomo o post, sempre dá para descansar um bocadinho. Adiante...)

Ora bem. Nunca tinha tido um cão.
Sempre que alguém me vinha pedir conselhos e opiniões sobre gatos, eu fazia questão de frisar os aspectos mais trabalhosos e chatos da relação. Falava dos cócós, dos vomitados, do pêlo, dos custos com veterinários, dos objectos arranhados...
Fazia-o porque há que fazer esmorecer aqueles que não estão preparados para lidar com o pacote completo do que significa ter um patudo na família. Fazia-o pelo animal.
Só depois falava dos afectos e de toda a magia que surge da cumplicidade entre um humano e um animal. De não se saber porra nenhuma sobre reciprocidade e amor incondicional até aquele momento.

Também isto não é diferente no caso de uma criança humana. Acho que ao invés de andar toda a gente a tentar impingir a maternidade, frisando uma e outra vez que é uma coisa maravilhosa, o tal "tens que ter!", mais valia focarem os outros pontos, aqueles mais chatos. Tipo as noites sem dormir, as fraldas cagadas, os custos com saúde, educação e tudo o resto, a possibilidade de terem uma "criança" em casa por mais de trinta anos. Pelas crianças. Para que quem pense que quer assumir esse papel, saiba ao que vai, reflicta, queira mesmo. Que saibam que não é uma gravidez que faz ou salva uma relação amorosa entre duas pessoas.
Só depois do sermão deveriam falar na redenção da alma humana através da alquimia suprema.

Fizemos exactamente o mesmo connosco a partir do momento em que o assunto "cão" veio à baila.

Aceitei o compromisso, o tal do pacote completo.
Embora o Natal esteja perto, não foi uma decisão impulsiva. Ponderámos, pedimos ajuda a quem conhece e sabe, pesquisámos, procurámos "o" cão, aquele cujo perfil casa melhor connosco. Aquele que na sua perfeição inata se adequa melhor aos donos que vão dar o melhor de si, mas que ainda têm muito para aprender.
With eyes wide open.


Hoje, ao terceiro dia, após pulgas, muitos chichis e cócós, não esmoreço. Estou feliz.
O compromisso é para toda a vida, e 15 anos parece tão pouco, mesmo ao virar da esquina.