segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Falar de Saúde #1: A acne e a rosácea (parte 1)



Poderia vir aqui falar de qualquer coisa mas, hoje apetece-me iniciar uma nova categoria dedicada à saúde. Porque ao contrário do que o ditado diz, a ignorância raramente é uma benção, especialmente no que toca ao bem estar.

Pareceu-me ter mais valor iniciar esta nova categoria com dois males que conheço extremamente bem: a acne e a rosácea. Proliferam na internet informações sobre ambos os padecimentos. A nível científico há pouco ou nada que eu possa acrescentar, mas posso partilhar um pouco da minha história pessoal enquanto pessoa que tem tido contacto, ao longo de anos, com estas doenças, o que poderá ter algum significado para outros pacientes.

Se a memória não me falha estaria ainda na minha primeira década de vida quando me apareceram os primeiros sintomas de acne. A área afectada não se limitava à face, mas estendia-se ao tronco, (costas e peito). Sem grandes grafismos, o grande incómodo residia sobretudo no facto em que acordar com a camisola do pijama suja era rotina. A vermelhidão, por vezes bastante acentuada, na zona T do rosto, também era um sintoma muito pouco simpático e talvez o que mais contribuiu para um mal estar psicológico.

Embora a acne atinja cerca de um décimo da população mundial, tornando-se a oitava doença dermatológica mais comum, não é muito habitual que esta dê sinais tão agressivos antes da puberdade.
A primeira consulta a que os meus pais me acompanharam foi junto de um médico de clínica geral. Creio que este também ficou bastante confuso por alguém de tão tenra idade demonstrar tais sintomas.
Saímos do consultório com uma receita - um cocktail de alguns remédios, para ver no que a coisa dava. Hei-de sempre lembrar-me desse primeiro tratamento, de tão bizarro que era: todas as noites, antes de me deitar, a minha mãe passava-me nas costas e peito uma pomada com uma consistência espessa e peganhenta, com um cheiro horrível e enjoativo a banana e depois polvilhava as mesmas áreas com uma qualquer espécie de pó de talco que havia sido receitado. Era um ritual que pela sua estranheza nos sacava caretas, mas se o médico diz...
Se já era desconfortável dormir com todas aquelas borbulhas chatas que faziam do meu torso um tabuleiro de minesweeper, imaginem-se numa versão croquete de banana!

O tratamento "croquete" não fez milagres e não tardou muito que nos dirigíssemos ao consultório de uma médica especialista que me acompanhou durante praticamente toda a minha adolescência.

Uma das coisas que me lembro da minha primeira consulta é a médica ter-me dito que "iria piorar antes de surgirem melhoras", desta vez graças aos medicamentos. Que era essencial seguir o tratamento à risca. Lembro-me de ter pensado como seria possível ficar pior. Sobretudo de ficar assustada com essa ideia: "o que é que ela quer dizer com pior?!"

O meu caso de acne não era dos piores de sempre, mas suficientemente grave para recorrer a um tratamento agressivo com base na isotretinoína, um derivado da vitamina A, mais conhecido no meio como Roacutan. Trata-se de um antibiótico tão, mas tão agressivo, que a gravidez durante e algum tempo após a toma é uma contraindicação absoluta e deverá ser terminada, pois existe a certeza de malformações graves no feto. A lista de possíveis reacções, contraindicações e advertências quanto ao Roacutan é extensa e assustadora, podendo afectar negativamente praticamente todos os sistemas do organismo, por vezes de forma permanente.
Hoje, ao ler a bula deste medicamento pela primeira vez em muitos anos, com outra maturidade e sapiência, considero altamente provável que haja uma correlação directa entre outras questões de saúde de que já padeci e/ou padeço e a toma do Roacutan, embora já tenha cessado esta há muitos anos.
Enquanto adolescente e jovem adulta era vulgar a inclinação para me sentir deprimida. Dar de caras com estudos que indicam haver uma relação causal entre a isotretinoína e a depressão é um abre-olhos!
Obviamente, os pacientes de acne, particularmente os casos graves não serão propriamente as pessoas mais alegres, sociáveis e com mais alto astral que por aí andam, visto ser uma condição que abala a autoestima, mas não pode ser descartada a responsabilidade de um medicamento que inibe a produção de serotonina e que mexe com o sistema nervoso - já se fala no papel dos retinoides no desenvolvimento de Alzheimer e esquizofrenia.
Igualmente no meu caso creio que a toma prolongada deste medicamento possa ter contribuído para o aparecimento ou agravamento de alguns padecimentos a nível de pele, gastrointestinal, músculos, articulações e até visão.

Se valeu ou não a pena é uma questão complicada de responder. Já vi o Roacutan ser chamado de "veneno milagroso". É terrível, mas na verdade acaba por funcionar. E embora não tenha uma pele perfeita, as suas imperfeições neste momento são uma fracção do que tive nos piores momentos da minha condição.

Quando se inicia um tratamento "à séria", coordenado por um médico dermatologista, gasta-se uma pequena fortuna em consultas e em remédios vários que se compram em catadupa. A minha rotina mensal/ bimensal consistia em análises ao sangue, seguidas de mais uma consulta médica, e uma nova remessa trazida da farmácia. O armário dos medicamentos enchia-se de caixas de Roacutan, Dalacin-T, outros antibióticos e muitos cremes e produtos de limpeza caríssimos à base de água termal cujo papel era acalmar a pele e ajudar a diminuir os efeitos secundários da parte mais agressiva do tratamento como a vermelhidão, a escamação, etc, que embora fossem receitados para tratar de um problema de saúde não tinham direito a comparticipação.
Um desses efeitos era a hipersensibilidade à exposição solar logo sempre que saía de casa tinha que aplicar na face um protector solar, espesso como uma base, num tom cinza esverdeado que dava à minha tez um resultado pouco feliz. Talvez ao gosto dos góticos e amantes de estórias vampirescas.

A acne não é somente uma questão estética, é também fisicamente dolorosa. Nos meus piores surtos tive cistos subcutâneos cuja presença me causou desconforto ao nível de uma dor de dentes, das más. Isto para não abordar exaustivamente todos os 50 graus de desconforto e dor que as diversas manifestações da acne são capazes.

Quando a fase pior do tratamento passa e começamos a ver resultados no espelho, a sensação é indescritível. É como se finalmente nos estivéssemos a conhecer pela primeira vez, como se nunca na verdade tivéssemos visto o nosso próprio rosto pois este estava camuflado por toda uma camada de lesões e inflamações. Retirada finalmente essa máscara é possível prestar a devida atenção a todos os traços de que somos feitos: do zigomático ao maxilar, da mandíbula à glabela, e como é agradável, elegante e até distinto aquele reflexo!



(continua...)